Ver, é transformar (Page 1)

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Olhemos juntos o mundo e aquilo em que ele se tornou. Não é uma ilusão, mas uma realidade dramática que o pensamento humano construiu. Ele elaborou estas ideias de competição, de agressividade, de ganância, uma moralidade baseada sobre o sucesso e o proveito. A ideologia dominante faz-nos tomar por natural este momento da história, que não é mais do que um momento do pensamento humano.
Hoje, o nosso próprio espírito está assustado pelo que ele próprio produziu, angustiado perante o estado do planeta e das relações conflictuosas que ele tem gerado. Ele procura a paz, a beleza, o amor, através de novas teorias, de novas igrejas, de novos ideais, ou de novos salvadores, na ligação com pessoas próximas, família, amigos, ou através de bens materiais. Procura sempre no exterior.
À medida que o mundo se torna mais complexo, mais materialista e conflictuoso, nós perdemos o contacto com nós próprios e afundamo-nos numa pobreza interior, oscilando entre prazer e desespero, esperança e angústia, presos pelo conflito dos opostos. Estamos convencidos que é isto, viver.
Habituámo-nos à luta constante com os outros, com nós próprios, com a natureza, com a vida. Reduzimos a nossa existência a um conjunto interminável de batalhas, de submissões e de sofrimentos. Eles não têm mais qualquer sentido, deixaram de fazer sentido dado que, imaturos, egoístas, nós somos incapazes de ser totalmente responsáveis de nós próprios, do nosso comportamento, dos nossos actos.
Será possível viver de outra maneira? Será que podemos sair deste caos gerado pela brutalidade e pela avidez? Será que somos capazes de viver em paz e em amizade uns com os outros?
Paremos um instante e façamos estas perguntas a nós próprios, sem tentar obter de imediato respostas pré-concebidas, com base nos nossos saberes, nas nossas crenças, nas nossas experiências memorizadas, sem reivindicar a adesão a um ideal, a uma igreja, a uma autoridade, a um salvador.

Tal como seres humanos, somos completamente responsáveis do estado do mundo. Cada um de nós, na sua vida quotidiana, contribui à agressividade, à avidez, à miséria. Será que temos a coragem de olhar isto, sem justificações, nem culpabilidade? Simplesmente ver os factos, sem preconceitos, sem qualquer condicionamento cultural, religioso, político?
Esta proposta de ver claramente, com simplicidade, com humildade, não se dirige àqueles que estão satisfeitos com eles próprios, com o seu espírito agressivo e cupido, àqueles que tiram o seu proveito ou a sua segurança do sistema económico e social, àqueles que estão bem enraízados nas suas crenças ou ideais, nem àqueles que pensam que somos umas marionetas accionados por uma força cósmica.
Ela dirige-se àqueles que, sinceramente, profundamente, ressentem a exigência de que mais bondade e amor circulem nesta terra, assim como a necessidade de pôr termo à confusão, ao conflito e à violência em nós próprios. Àqueles que advinham que a desordem, o quebrar e o sofrimento deles e deste mundo não são inevitáveis. Àqueles que não se vêem como seres separados, com as suas ideias distintas, no interior de barreiras culturais, políticas, económicas, mas que perceberam que nós formamos uma só mesma humanidade.

O mundo está à beira da catástrofe e nós estamos a debater novos esquemas económicos, sociais, que não serão mais que respostas superficiais, não adaptadas à realidade presente, todas elas oriundas dum passado memorizado que só gerou dramas.
O pensamento humano produziu este estado de desordem planetária, dividiu os homens em comunidade nacionais, religiosas, económicas que se combatem, e é este pensamento que tenta resolver os problemas que ele próprio criou.
O pensamento é parcial, fragmentado, limitado pelo saber acumulado e pelas experiências do passado. Persuadidos que a sua capacidade de adaptação, a sua habilidade a analisar, a argumentar, são a inteligência, utilizamos o pensamento sem ver os seus limites, a fim de estabelecer a paz em sociedades onde a confusão e o conflito são os seus produtos. A organização social e económica que edificamos, assim como todos os modelos que procuramos criar são edificados por este mesmo pensamento. Ele é por natureza factor de oposições e de conflictos, porque ele consiste em separar.
Um pensamento fragmentário, contraditório, só pode criar desordem. Forjado por condicionamentos históricos, medos enraizados, ele nunca poderá trazer a mudança. A verdadeira transformação está para lá do pensamento. Ela reside numa visão holística da vida, do seu movimento global tal como ele é, e não numa análise fragmentada, a partir de pontos de vista dogmáticos ou ideológicos.

É assim que nós vivemos: num mundo de ideias contraditórias que nos fazem acreditar que se nos ligarmos a noções de paz, de generosidade, nos vamos livrar da violência e da cupidez. Nós moldamos ideais para nos livrarmos do desastre que se desenrola aos nossos olhos, mas eles jamais são conseguidos. Estabelecemos uma separação entre a realidade e aquilo que deveria ser, que nos leva a cair na confusão e no desespero. Agimos a partir duma ideia, mas não há nenhuma novidade, nenhuma liberdade nessa acção que é apenas uma reacção, constituída pelo nosso saber e pelas nossas experiências acumuladas.
Não podemos contar com o pensamento para criar qualquer coisa de completamente novo. Ele nunca vê os factos no mesmo instante em que eles surgem. Ele pode compreendê-los num lapso de tempo muito curto, mas nesse intervalo de tempo aparecem logo subtilmente desejos, medos, imagens que edificam um mundo que não é mais a realidade tal qual ela é.
O pensamento engana-nos, manipula-nos, tanto mais quanto ele é de ora avante complexo, hábil.
Com as suas opiniões, os seus preconceitos, as suas condenações, as suas justificações, ele tornou-se um meio de fugir aos factos, transformando-os em abstracções. Ora, os factos estão presentes, tal qual são, ainda que o pensamento tenha alguma dificuldade em o admitir.
Como só entramos em contacto com eles através das nossas ideias, acabamos por ter medo. O medo só existe pelo pensamento. Ele tenta traduzir a realidade a fim de encontrar uma segurança, uma permanência que nenhum acontecimento vá perturbar. Ele cria assim um ideal, uma crença, um sistema de pensamento que transporta nele as sementes da violência e da infelicidade. Assim, depois de ter adorado aquilo que ele próprio criou, nós pomo-nos a detestá-lo.
Não é um novo sistema de pensamento elaborado para reorganizar as relações sociais, políticas, económicas, que vai resolver os nossos problemas, mas uma visão e uma conduta justas, livres de todos os nossos condicionamentos religiosos, ideológicos, psicológicos, livres de todos os nossos objectivos de proveito, de reconhecimento egótico, de poder. Porque o caos actual não é mais do que a projecção do nosso campo de batalha interior.

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